sexta-feira, 15 de abril de 2016

Teaser OS 77: A BATALHA DO LIVRAMENTO - Memória Tembé-Tenetehara


Foto: Nassif Jordy


No final do século XIX, a antropologia começou a se estabelecer como um campo de saber. Pautados, então, firmemente no discurso evolucionista, os estudos sobre os povos da América começaram a se circunscrever em uma nova episteme. Não eram de responsabilidade dos historiadores. Aí começa a ruptura: não se escreve a história dos povos da América, mas sim sua cultura. A criação da Antropologia, com todas as suas ambiguidades e seus dispositivos de silenciamento, inventou uma espécie de grau zero da História.
Ivânia Neves

A temporalidade ocidental estabelece uma história com princípio, meio e fim, supostamente fixa, sem a possibilidade de novas versões. Sabemos hoje, no entanto, que o trabalho da memória não se submete a esta imposição. Neste documentário, vamos mostrar um acontecimento silenciado na história do Tembé. Dar visibilidade a este acontecimento, hoje, é justamente colocar em funcionamento aquilo que Foucault entende por história descontínua. Por que agora é possível falar sobre o que aconteceu em 1996?
Em nossas últimas visitas, durante a realização do Projeto Patrimônio Tembé, na TIARG, no segundo semestre de 2014, eles sabiam bem o que nós estávamos fazendo ali e quais eram os nossos interesses: contar a versão Tembé. Construímos uma relação  de respeito mútuo. A princípio, procurávamos materialidades da tradição do povo Tembé-Tenetehara, como narrativas cosmológicas, artesanato, música, dança, pinturas corporais, etc. Estas materialidades, presentes na memória coletiva dos Tembé-Tenetehara, de certa forma, se emaranhavam com as memórias de luta desse povo com os não indígenas.
Nesse desenrolar, um acontecimento, vivido por eles há quase 20 anos, em 1996, foi trazido das sombras: o sequestro, aprisionamento e tortura de 77 Tembé-Tenetehara, praticado por fazendeiros invasores da Terra Indígena Alto Rio Guamá. Submetidos durante três dias a condições sub-humanas, sem comida, sem água e num espaço mínimo, onde não podiam todos deitar ou até sentar ao mesmo tempo, os 77 indígenas foram ameaçados de morte e obrigados a assinar documentos onde abririam mão de suas terras.A história dos 77 é uma história de um conflito dentro de outros, e que já duram alguns séculos. 

Nassif Jordy Filho 


É que o saber não é feito para compreender, ele é feito para cortar. (Michel Foucault)



          
      Este teaser apresenta uma das maiores tragédias vividas pelo povo Tembé-Tenetehara, da Terra Indígena Alto Rio Guamá, a prisão e a tortura de 77 indígenas que lutavam para manter as fronteiras de suas terras. Se a informação não tivesse chegado à mídia, muito provavelmente uma parte deles teria sido assassinada pelos invasores. Para Naldo Tembé, apesar de humilhante, este acontecimento marcou o início da retomada das áreas invadidas na TIARG.

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