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| Foto: Nassif Jordy |
No final do
século XIX, a antropologia começou a se estabelecer como um campo de saber.
Pautados, então, firmemente no discurso evolucionista, os estudos sobre os
povos da América começaram a se circunscrever em uma nova episteme. Não eram de
responsabilidade dos historiadores. Aí começa a ruptura: não se escreve a
história dos povos da América, mas sim sua cultura. A criação da Antropologia, com
todas as suas ambiguidades e seus dispositivos de silenciamento, inventou uma espécie
de grau zero da História.
Ivânia
Neves
A temporalidade
ocidental estabelece uma história com princípio, meio e fim, supostamente fixa,
sem a possibilidade de novas versões. Sabemos hoje, no entanto, que o trabalho
da memória não se submete a esta imposição. Neste documentário, vamos mostrar um
acontecimento silenciado na história do Tembé. Dar visibilidade a este
acontecimento, hoje, é justamente colocar em funcionamento aquilo que Foucault
entende por história descontínua. Por que agora é possível falar sobre o que
aconteceu em 1996?
Em nossas últimas
visitas, durante a realização do Projeto Patrimônio Tembé, na TIARG, no segundo
semestre de 2014, eles sabiam bem o que nós estávamos fazendo ali e quais eram
os nossos interesses: contar a versão Tembé. Construímos uma relação de respeito mútuo. A princípio, procurávamos
materialidades da tradição do povo Tembé-Tenetehara, como narrativas
cosmológicas, artesanato, música, dança, pinturas corporais, etc. Estas
materialidades, presentes na memória coletiva dos Tembé-Tenetehara, de certa
forma, se emaranhavam com as memórias de luta desse povo com os não indígenas.
Nesse desenrolar, um acontecimento, vivido por eles há quase 20 anos, em 1996,
foi trazido das sombras: o sequestro, aprisionamento e tortura de 77
Tembé-Tenetehara, praticado por fazendeiros invasores da Terra Indígena Alto
Rio Guamá. Submetidos durante três dias a condições sub-humanas, sem
comida, sem água e num espaço mínimo, onde não podiam todos deitar ou até
sentar ao mesmo tempo, os 77 indígenas foram
ameaçados de morte e obrigados a assinar documentos onde abririam mão de suas
terras. A história dos 77 é uma história de um conflito dentro de outros, e que já duram alguns séculos.
Nassif Jordy Filho
É que o saber não é feito para compreender, ele é feito para cortar. (Michel Foucault)
Este teaser apresenta uma das maiores tragédias vividas pelo povo Tembé-Tenetehara, da Terra Indígena Alto Rio Guamá, a prisão e a tortura de 77 indígenas que lutavam para manter as fronteiras de suas terras. Se a informação não tivesse chegado à mídia, muito provavelmente uma parte deles teria sido assassinada pelos invasores. Para Naldo Tembé, apesar de humilhante, este acontecimento marcou o início da retomada das áreas invadidas na TIARG.

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