A forma particular como denominam os astros
e as constelações fazem parte do saber tradicional deste povo, que mostra à
ciência ocidental uma forma diferente de compreender o universo. Este saber, hoje, convive com as produções midiáticas,
tecnologias, com os conteúdos curriculares das escolas, com o discurso de
diferentes religiões. Apenas alguns mais velhos conseguem identificar a
cosmologia tradicional, que envolve a denominação das estrelas, dos planetas,
da lua, mas também está relacionada aos ciclos da vida.
No plano cosmológico, segundo os saberes tradicionais,
como nos explicou Lourival Tembé, a criação e estruturação do universo está
relacionada a Maíra, seus filhos e outros heróis civilizadores que ajudaram a
construir o universo Tenetehara. Podemos conhecer algumas destas histórias no
terceiro capítulo. Kwarahy, o céu se organiza a partir do Tapirapé, o Caminho
da Anta.
Para os mais velhos, vários aspectos da vida cotidiana
revelam a importância da cosmologia tradicional. Os diferentes momentos do
ritual de vida obedecem às dietas alimentares e estão associados à organização
dos astros no céu. Segundo os ensinamentos de Verônica Tembé, o céu precisa
estar claro, aberto, para que a vida das crianças e dos jovens seja iluminada
pelas estrelas.
Esta cosmovisão também está presente em suas
histórias, sobretudo naquelas que se constituem com a temporalidade Tenetehara,
o “Zekwehe Zekweh”, como vimos no segundo capítulo.
Wiranu / Ema, uma das maiores constelações Tembé, é
formada por várias constelações “oficiais”, dentre elas Escorpião, que forma
uma das pernas da Ema e o Cruzeiro do Sul, o bico do animal. Wiranu pode ser
tomada como referência do Sul celestial do ponto de vista dos Tembé.
Como nos explica Germano Bruno (2007, p. 03):
As observações do
céu que realizamos com os indígenas permitiram localizar a maioria das
constelações tupinambá e de diversas outras etnias da família tupi-guarani.
Verificamos que etnias diferentes - distintas culturalmente, como seria de se
esperar - possuem um conjunto muito semelhante de conhecimentos astronômicos,
utilizados para materializar tanto o calendário como os sistemas de orientação.
Esse conjunto comum se refere, principalmente, ao Sol, Lua, Vênus, Via Láctea,
e às constelações do Cruzeiro do Sul, Plêiades e das regiões do céu onde se
situam Órion e Escorpião, constelações ocidentais que surgem, respectivamente
no verão e no inverno, no hemisfério sul.

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